E quando eu penso em parar de usar a net, porque senti-me ferida com algo, ou porque ela toma muito do meu tempo e isola-me das realidades reais, vem uma amiga e envia Cora Coralina, e o outro poeta fala da Cora com tanto carinho.

Depois vem aquele beijo virtual, aquele colo lindo, uma resposta poética ao meu poema, uma formatação feita com tanto amor..

Um elogio, uma carícia.

E eu  percebo que fui lida/ouvida, e tentaram dizer-me: Te amo.

Percebo desprendimentos em tantos momentos , superando em muito as emoções já gastas da minha vida real.

Então, as feridas virtuais ficam pequenas e as reais ficam enormes.

Quando encontro um amigo na rua, ele não diz:

- Adorei tuas palavras.

Sequer as ouve, pois a pressa é grande.

Se eu  tentar falar do Manuel Bandeira no cabeleireiro, vão pensar que sou doida.

E se citar a Gilka Machado num barzinho entre amigos não poetas, vão mandar-me parar de beber..tá de porre.

Então, a net consome muito das minhas horas diárias, tira meu sono, impulsiona-me a fumar mais.

Tira minha concentração da panela, deixa o saco de roupa suja aumentar, as compras por fazer, o armário por arrumar.

Mas  leva-me a ver a lua de forma diferente, a sentir cheiro de mar , a rir para a brisa, a não capitular dos meus sonhos.

E aquele vinho fica com um sabor mais gostoso, desce junto com a emoção.

Penso no Drummond, em Poema de sete faces:

"Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução"

E concluo:

Não abandono a net

mesmo que me chamasse Janet.

 

Rio, 04 de maio de 2003.

 

 

                                                                       Rosa Pena

Eu & Net